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Neste artigo, você entenderá como andam as pesquisas para uma possível vacina contra a Covid-19 e acompanhará uma entrevista com médicos infectologistas sobre o panorama da pandemia  e a chegada do vírus ao Brasil.

Boa leitura!

Relembre como tudo começou

A data 31 de dezembro de 2019 certamente ficará marcada na história. Naquele dia, aconteceu o primeiro alerta sobre uma infecção por um vírus desconhecido que causava uma síndrome respiratória severa.

Com origem na província de Hubei, na China, a doença logo se propagou na cidade de Wuhan, levando à adoção da medida de quarentena, imposta pelas autoridades públicas locais.

O cenário se agravou e, o que seria uma epidemia de um vírus ainda desconhecido, evoluiu dramaticamente e atingiu todos os continentes, tornando-se uma pandemia.

Cientistas descobriram que o agente patológico é uma mutação de um vírus já existente, o coronavírus. A nova mutação passou a ser chamada “novo coronavírus” inicialmente.

Em tempo hábil, as informações genéticas da nova mutação do coronavírus foram descobertas e, por sua característica infecciosa das vias respiratórias, o vírus recebeu o nome científico de SARS-coV-2, popularmente conhecido por Covid-19.

Covid-19 chega ao Brasil

O primeiro caso confirmado de infecção pelo novo coronavírus no Brasil foi anunciado pelo Ministério da Saúde em 26 de fevereiro de 2020, na cidade de São Paulo.

Por ser um vírus novo, seu comportamento era desconhecido pelas autoridades públicas e sanitárias e, até então, o desenvolvimento da doença e sua progressão estavam sendo acompanhados e estudados.

Neste cenário, centenas de pessoas apresentavam sintomas e ficaram em observação para confirmar a suspeita da doença.

Foi em 17 de março, aproximadamente 20 dias após a primeira confirmação da Covid-19, que a primeira morte pela doença foi anunciada pelas autoridades públicas.

Em outros países, fora do local de origem do vírus, já havia diversos registros de contaminação. A Organização Mundial de Saúde (OMS) havia decretado, ao final de janeiro, emergência de saúde pública de interesse internacional.

O alerta mundial foi adotado pela sexta vez. As outras ocasiões foram as epidemias causadas por:

  • H1N1, em 2009;
  • Poliomielite, em 2014;
  • Microcefalia associada ao Zika, em 2016;
  • Ebola, em 2014 e em 2019;

Em 10 de março de 2020, com a pandemia já em curso, o Brasil contabilizava 34 casos confirmados de SARS-COv-2, porém, sem mortes.

As autoridades públicas locais estavam alertas e acompanhando a evolução da doença. Medidas para o combate ao novo coronavírus foram adotadas em todos os Estados brasileiros.

No entanto, como previsto, a curva de contágio entrou em aceleração, aumentando os números de casos confirmados e mortes em decorrência da doença.

Até o dia 15/04/20, o Brasil contabilizava 25.262 casos e 1.532 mortes.

Curva de Contágio da Covid-19: Entenda como funciona

As epidemias seguem um padrão de crescimento exponencial, representando os fenômenos que se multiplicam rapidamente ao longo do tempo.

Uma única pessoa infectada é capaz de transmitir um vírus para o seu círculo profissional, familiar e de amizades. Consequentemente, os infectados continuarão a transmissão para seus respectivos grupos de convivência.

O acompanhamento da progressão da doença é realizado através de um gráfico denominado “curva de contágio”.

Conversamos com o médico infectologista Cassio Nascimento, que explicou como funciona a interpretação deste gráfico.

“A curva de contágio é um gráfico no qual é confrontado o sharing viral e seu crescimento no número de doentes com a capacidade do sistema de saúde em acolher os casos que necessitem assistência médico-hospitalar, seja ambulatorial seja em regime de internação. ‘Achatar a curva’ significa reduzir esse sharing. Como se trata de doença de transmissão respiratória ‘pessoa a pessoa’ e potencialmente através de fômites, à medida em que as medidas de distanciamento social e proteção individual são intensificadas, a curva de número de doentes é reduzida e os sistemas de saúde terão maior condição de acolher os casos que vierem ao seu encontro”, explica.

Como o Sistema de Saúde enfrenta a pandemia da Covid-19?

O Sistema Único de Saúde (SUS) tem, como uma das premissas, a promoção da saúde em caráter universal. A eclosão da pandemia da Covid-19, com o aumento exponencial da curva de contágio, pode desencadear uma fragilidade na assistência.

Porém, as autoridades de saúde de cada Estado e município, vêm adotando medidas para evitar a superlotação dos hospitais já existentes e, consequentemente, evitar a má assistência ao paciente. Dentre estas medidas adotadas, podemos citar:

  • Montagem de hospitais-campanha;
  • Contratação de mais profissionais de saúde, dentre eles, médicos e enfermeiros;
  • Aquisição de maiores quantidades de insumos;
  • Aquisição de equipamentos hospitalares, como respiradores e demais equipamentos utilizados em casos de média e alta complexidade.

O infectologista André Cotia avalia a situação do Sistema de Saúde do Brasil. “O sistema de saúde no Brasil é bem diversificado, Estados como Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo, por exemplo, possuem uma relação de médicos por habitantes três a quatro vezes maior do que outros Estados, como Maranhão e Pará. Sem falar na discrepância no número de hospitais e leitos de internação entre os Estados. O cenário do SUS não pode ser igualado ao cenário da saúde privada e das operadoras de saúde. Nosso sistema público de saúde sofre com diminuição de leitos e sucateamento há mais de uma década, apesar de alguns avanços em programas específicos, como maior investimento em atenção básica e programas de prevenção”, pondera.

De acordo com o Ministério da Saúde, o Brasil ainda não alcançou o pico da transmissão da Covid-19. Embora medidas como o isolamento social tenham sido adotadas, a previsão é que os meses de maio e junho tenham mais casos da doença.

Ainda de acordo com André Cotia, o Sistema Único de Saúde (SUS) deve investir em aumento no número de leitos, preparação dos profissionais de saúde através de protocolos assistenciais, preventivos e treinamentos, além da aquisição de equipamentos como ventiladores mecânicos.

“O SUS deve investir em organização de fluxos de atendimento da população, criação de hospitais de campanha e investimento em equipamentos de proteção individual para os profissionais de saúde, para evitar redução de profissionais de saúde que podem contrair a doença. O investimento em testes diagnósticos, testagem e liberação rápida do resultado de casos suspeitos também deve ser realizado. As orientações de isolamento dos casos e quarentena devem ser difundidas”, explica.

Testes para detecção do SARS-Cov-2

Existem dois tipos de testes para a detecção do novo coronavírus: PCR e análise de anticorpos. Vamos explicá-los.

O teste RT-PCR (sigla em inglês para transcrição reversa seguida de reação em cadeia da polimerase) é um método usado em laboratórios desde 1983 e pode ser utilizado em áreas de pesquisa e diagnóstico diversas.

O procedimento de coleta para este teste consiste na introdução de um cotonete denominado swab na cavidade nasal ou na boca do paciente, a fim de coletar secreção. A amostra coletada é enviada ao laboratório e, através da utilização de reagentes, consegue-se saber se o vírus está presente ou não. O processo demora aproximadamente quatro horas para ficar pronto.

Já os famosos testes rápidos consistem em testes de anticorpos. O procedimento é realizado através de um pequeno furo no dedo do paciente, para coleta de uma pequena amostra sanguínea, a fim de detectar a presença de anticorpos para o vírus. O resultado positivo indica que o indivíduo já foi infectado.

No Estado de São Paulo, as coletas são encaminhadas ao Instituto Adolfo Lutz (IAL), laboratório de referência da rede pública paulista. Porém, devido à alta demanda, a instituição não consegue dar conta da testagem em tempo hábil.

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Projeto Supera-Ação

Criado pelo Supera Parque de Inovação e Tecnologia de Ribeirão Preto, unido a várias startups, o projeto consiste em uma iniciativa de cunho emergencial e sem fins lucrativos, voltada à conversão de laboratórios e parques de equipamentos em um laboratório diagnóstico de grande porte, capaz de ofertar testes do novo coronavírus para atender à alta demanda do sistema de saúde.

O Supera-Ação tem como meta a disponibilização de 30 mil testes, realizados no próprio município de Ribeirão Preto, em vez do IAL. Nesta primeira fase da iniciativa, serão disponibilizados 5 mil procedimentos.

O Hygia, software de gestão da saúde pública, é utilizado pela prefeitura de Ribeirão Preto e receberá os resultados dos testes PCR de Covid-19 feitos no Supera Parque.

Leia mais: Supera-Ação: Iniciativa amplia testes e agiliza resultados em Ribeirão Preto

O que se sabe sobre o novo coronavírus?

“Em pouco tempo, muita coisa já foi descoberta sobre a nova mutação do coronavírus, como a sequência genética e suas mutações, o período de incubação, a velocidade de propagação do vírus, o potencial de contaminação, os principais sinais e sintomas e quais os órgãos mais acometidos”, explica o médico infectologista Eduardo Faria.

No dia 9 de janeiro, a Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou as informações levantadas pelas autoridades chinesas acerca do novo vírus. Tratava-se de um vírus da família coronavírus que causa doenças com variantes, desde um resfriado comum até uma evolução mais grave, como a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS) e a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS).

A partir daí, surgiram as recomendações da etiqueta respiratória, além de evitar o contato com pessoas sintomáticas de doenças respiratórias.

O infectologista André Cotia também explica sobre a Covid-19. “Ele é um vírus da família extensa dos coronavírus, que causam doenças em diversas aves e mamíferos. Inclusive, já são conhecidos, há décadas, vírus da mesma família causadores de resfriados em seres humanos. Recentemente, ocorreram epidemias por outros dois vírus da mesma família: os causadores da SARS, em 2002, e da MERS, em 2012, duas doenças respiratórias graves. O vírus atual foi nomeado como SARS-CoV2 e se sabe que surgiu na China na província de Hubei. Ele provavelmente saltou de um mamífero (morcegos ou pangolim, os mais prováveis) para infecções em humanos através do contato próximo com esses animais e, rapidamente se espalhou, infectando milhares de pessoas”, comenta.

Covid-19: Especialistas correm contra o tempo em busca de uma vacina

A Organização Mundial de Saúde divulgou no dia 15/04 que três vacinas para a Covid-19 estão em fase de testes clínicos e, ao menos, outras 70 estão sendo desenvolvidas.

De acordo com o infectologista Cassio Nascimento, o desenvolvimento de uma vacina passa por diversos estudos, como os pré-clínicos e os clínicos de fases I a III.

“O estudo de fase III, diante de tal emergência, pode ser dispensado. Estima-se que uma vacina possa levar entre 2 a 20 anos para ser desenvolvida e aplicada no mercado. Para fins de cumprimento das medidas de controle da ESPII atual, esta não é uma medida que os gestores públicos devam considerar em um primeiro momento, haja vista seu custo e densidade tecnológica. Além da vacina, é possível sintetizar uma droga antiviral com eficácia comprovada contra o vírus, impedindo sua invasão e replicação.

No meu entender, esse suposto antiviral seria mais fácil de ser desenvolvido porque pode se basear em conclusões tiradas a respeito da estrutura genética viral (as vacinas dependem, num primeiro momento, de anticorpos eficazes e duradouros, produzidos inicialmente por organismo vivo). Um antiviral pode, pontualmente, inibir moléculas-chave para a ação viral, reduzindo sua multiplicação e encurtando o ciclo de contaminação e consequente resposta imunológica. Além das medidas de distanciamento social, creio que um antiviral eficiente esteja no mercado em menos de um ano”, explica.

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Os projetos dos Estados Unidos da América (EUA) e da China, voltados à elaboração de uma vacina contra a Covid-19, estão a todo vapor.

Em março, os testes clínicos de uma possível vacina desenvolvida pela China foram iniciados. Recentemente, houve a divulgação relacionada ao avanço para a segunda fase destes testes.

O projeto da vacina foi desenvolvido em conjunto com a  Academia Militar de Ciências Médicas do Exército  de Libertação Popular (EPL), que são as forças armadas chinesas. A imunização [em desenvolvimento] é pautada na subunidade, uma fórmula de nova geração que contém apenas antígenos específicos sem patógenos. Por isso, é considerada mais segura que as vacinas tradicionais.

Durante a primeira etapa de testes, houve a aplicação do líquido desenvolvido em 108  pessoas saudáveis, escolhidas entre mais de 5.200 candidatos. Os profissionais de saúde dividiram as pessoas em três grupos, de acordo com a dosagem recebida.

Os resultados foram positivos, possibilitando a continuidade do processo de desenvolvimento.

A segunda etapa de testes consistirá na injeção da solução em uma quantidade maior de pessoas, visando à observação de sua eficácia e segurança, para que se estabeleça um plano de vacina.

Já nos EUA, a estratégia adotada para a confecção de uma possível vacina foi a utilização de uma tecnologia conhecida como RNA mensageiro (RNAm), que tem como objetivo a cópia do código genético do vírus, em vez de criar uma versão atenuada do Covid-19.

A OMS aponta que mais de 90 países mostraram interesse em juntar-se ao “Teste Solidariedade”, uma iniciativa da entidade para comparar os tratamentos que ainda não foram testados para casos graves de infecção pelo novo coronavírus.

Vacina no Brasil

No Brasil, a corrida contra o tempo na busca pela vacina também está acontecendo.  Pesquisadores do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor), da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), estão apostando uma estratégia diferenciada no desenvolvimento da vacina contra o SARS-CoV-2.

A expectativa é de que haja uma aceleração no processo de desenvolvimento e, nos próximos meses, chegue-se a uma solução para testes em animais, inicialmente.

Lições geradas pela pandemia

A pandemia pelo novo coronavírus trouxe mudanças não apenas no sistema de saúde, como também na vida como um todo. Mudanças de rotina, isolamento social e impactos econômicos. Os profissionais de saúde que estão no front são unânimes ao dizerem que nunca mais serão os mesmos, devido aos desafios que enfrentam.

“Eu, como muitos profissionais de saúde, tenho enfrentado esta pandemia de maneira séria, baseando-me em escolhas racionais e pautadas em descobertas científicas sérias. O maior desafio têm sido conscientizar toda a população da importância do isolamento social. Todo esse processo tem sido um grande aprendizado sobre a importância do trabalho em equipe, da capacidade de transmissão de informações e da capacidade em se reinventar diante de tantas mudanças de cenários a cada semana”, reflete o médico infectologista André Cotia.

Entrevistados:

Dr. Explica sobre Vacina Covid-19André Luiz Franco Cotia

Médico infectologista do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar do Sabará Hospital Infantil. Atua na equipe do ambulatório e interconsulta de Infectologia do Instituto Brasileiro de Controle do Câncer (IBCC), em São Paulo.

 

Explica sobre a vacina da Covid-19Cássio Nascimento

Médico infectologista atuante em Brasília – DF.


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